Estudo prevê risco de extinção no Cerrado por desmatamento e mudanças climáticas
Pesquisa mostra que entender como os animais respondem ao calor melhora previsões sobre os impactos da crise climática
Por Gabriel Henrique de Oliveira | Edição: Bruno Augusto, Sara Barreto, Laryssa Mendonça | Supervisão de edição: Lauro Moraes
Publicado na nova edição da revista Frontiers in Amphibian and Reptile Science, o estudo Ecophysiological constraints outperform environmental predictors in forecasting climate-driven extinction risk of a Cerrado endemic lizard mostra que previsões ficam mais precisas quando levam em conta não apenas o clima e o ambiente onde a espécie vive, mas também como o seu corpo funciona diante do aumento da temperatura. Em outras palavras: para saber quais animais correm mais risco, não basta olhar para o mapa — é preciso entender seus limites fisiológicos.
A pesquisa analisou o lagarto Micrablepharus atticolus, um pequeno réptil endêmico do Cerrado. Os cientistas compararam diferentes formas de prever a distribuição da espécie, tanto hoje quanto no futuro. Alguns modelos usavam apenas variáveis ambientais, como temperatura e chuva. Outros incorporavam dados fisiológicos, como o desempenho locomotor do animal em diferentes temperaturas e o número de horas do dia em que ele conseguiria permanecer ativo sem sofrer com o calor.
O resultado foi claro: os modelos que incluíram essas informações fisiológicas apresentaram melhor desempenho. E mais: eles apontaram um cenário mais grave para o futuro da espécie do que o previsto pelos modelos tradicionais. Nas projeções para 2050 e 2070, quase todos os cenários indicaram uma forte redução das áreas adequadas ao lagarto. Em alguns casos, a perda estimada de hábitats adequados chegou a 98,5%.
Isso significa que modelos baseados apenas em variáveis ambientais podem transmitir uma falsa impressão de segurança. Ao ignorar como o calor afeta diretamente o funcionamento do organismo, essas abordagens podem prever que uma espécie ainda conseguirá sobreviver em áreas que, na prática, já serão quentes demais para ela manter atividades essenciais, como locomover-se, buscar alimento, fugir de predadores e se reproduzir.
Alerta para a conservação do Cerrado
O trabalho também chama a atenção para a situação do próprio Cerrado, um dos biomas mais ricos em biodiversidade do planeta e, ao mesmo tempo, um dos mais ameaçados. O artigo destaca que mais da metade da vegetação nativa já foi perdida e que apenas 7,7% do bioma está coberto por áreas protegidas. Nesse cenário, prever com mais realismo quais espécies são mais vulneráveis pode orientar as prioridades de conservação.
Além de reforçar a gravidade da crise climática, o estudo deixa uma lição mais ampla: para proteger a biodiversidade, é preciso aproximar a ciência dos mecanismos reais que sustentam a vida. Para espécies com características semelhantes às de Micrablepharus atticolus, incorporar dados fisiológicos pode fazer diferença na hora de estimar riscos e planejar ações de conservação mais eficazes.
O artigo reúne pesquisadores do Instituto Federal do Piauí, da Universidade de Brasília, da Universidade do Estado de Mato Grosso, da University of California, Santa Cruz, e da Ohio University, participantes da Rede Biota Cerrado e do Centro de Conhecimento em Biodiversidade.